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Entrevista Concedida ao Jornal Estadão.com.br
Publicação Original 25/05/2005
Editada em Maio 2009
Disponível em: http://www.link.estadao.com.br/index.cfm?id_conteudo=3817
Inventor do conceito de WebQuest, Bernie Dodge acha que já não é mais possível pensar em aprendizado sem o auxílio da rede
André Mascarenhas
Em duas palestras lotadas – uma em Florianópolis, no dia 15, e outra em São Paulo, na última quarta-feira –, o professor da Universidade Estadual de San Diego Bernie Dodge explicou para educadores e tecnólogos brasileiros como fazer bom uso da invenção que o colocou, há dez anos, na vanguarda da pesquisa de tecnologias para fins pedagógicos nos EUA.
Baptizado de WebQuest, o invento é definido pelo próprio autor como uma metodologia cujo
objectivo é desenvolver em crianças e adolescentes a capacidade de entender o mundo a partir de informações disponíveis na internet.
Em entrevista ao Estado, Dodge dá sua opinião sobre a relação entre internet e educação nos dias de hoje: "O único lugar em que se pode pensar em educação sem internet é em um monastério."
Como funciona a WebQuest?
WebQuest é uma metodologia de ensino que visa a promover o bom uso da internet entre alunos com mais de 8 anos. E foi pensada para possibilitar o melhor aproveitamento possível do tempo deles. A
ideia é que os alunos não percam horas e horas procurando por informações, mas que façam uso delas da mesma maneira que terão que fazer mais tarde, como cidadãos e profissionais. A WebQuest visa a desenvolver nos alunos a habilidade de, com ajuda da internet, pensar com refinamento.
O Sr. pode dar um exemplo?
As barreiras de corais na costa da Flórida estão morrendo. Há uma WebQuest em que os estudantes entram em
contacto com esse problema, divididos em grupos que representam diferentes interesses. Um pode ser a indústria do turismo, que quer que as pessoas continuem mergulhando e explorando os corais. Outro tem a perspectiva dos ambientalistas, que prefere ver as pessoas longe das barreiras. E assim por diante. Cada grupo recebe websites escolhidos pelo educador, de forma que possam fundamentar seus pontos de vista. Em seguida, vem a parte mais importante: os alunos recebem uma tarefa que tem como
objectivo chegar a um consenso a partir das diferentes perspectivas. É nesse debate, que acontece longe do computador, que o aprendizado toma forma. É um tipo de aprendizado que envolve a transformação da informação, e não apenas a sua repetição. Não queremos que as crianças sejam máquinas
fotocopiadoras. Queremos que aprendam a pensar.
A maioria das WebQuests indica os sites de pesquisa. Por que não deixar os estudantes encontrá-los sozinhos?
Porque é muito difícil encontrar bons websites. Quando desenvolvi essa metodologia, a
ideia era que os professores tivessem esse trabalho para que as crianças não perdessem tempo procurando por informações que muitas vezes podiam estar erradas. De qualquer forma, é um processo gradual. Quando elas ficam maiores, é possível deixá-las mais soltas. É como aprender a andar de bicicleta.
O professor poderia pedir para as crianças procurarem por essas informações nos livros. Qual é a diferença? Por que a internet, e não os livros?
Esse é um ponto importante. O formato poderia funcionar muito bem com livros. Eu poderia ter criado um “BookQuest”. O lado positivo dos livros é que eles foram editados. Presume-se que são
correctos e precisos. Mas a internet também tem seus pontos positivos: é mais
actualizada e lá podemos encontrar sons, animações e outras coisas que os livros não podem oferecer. E o mais importante é que, na rede mundial de computadores, encontramos informações de diferentes fontes, como matérias de jornal, entrevistas com especialistas no assunto, informações sobre legislação, etc. As crianças de hoje viverão em um mundo em que quase tudo estará online. Então, quanto mais elas tiverem a oportunidade de praticar esse tipo de exercício melhor. Mesmo porque é necessário ensiná-las a serem críticas com aquilo que encontram na web.
O senhor acredita que um dia a internet poderá substituir os livros
didácticos?
Eu acredito, mas o
factor de mudança não será a internet em si, mas um conjunto de
factores. Em primeiro lugar, já não faz mais sentido que crianças carreguem 20 ou 30 quilos de livros na mochila. Além disso, os livros
didácticos estão sempre desactualizados, pois precisam passar por vários
comités para que algo de novo seja incluído neles. Além disso, para os professores é impossível encontrar um livro que corresponda perfeitamente ao curso pretendido. Então, na minha opinião, uma das áreas em que os primeiros "e-books" finalmente
descolarão é justamente a dos livros didácticos.
É possível pensar em educação sem internet nos dias de hoje?
O único lugar onde se pode pensar em educação sem internet é em um monastério, onde se aprende olhando para si mesmo e meditando. Eu acho que, para qualquer um que queira conhecer e fazer parte do mundo, a internet será parte essencial do aprendizado.
E sobre a WebQuest no Brasil? O senhor acompanha o que vem sendo feito por aqui?
O professor Jarbas Novelino Barato é o evangelizador da WebQuest no Brasil, divulgando a metodologia tanto no Senac como na Universidade de São Paulo (USP). Até ele colocar o site dele no ar, o Brasil era o país não anglófono com maior número de acessos ao meu site.